sábado, 28 de março de 2009

O Papa e o Gandhi

C. Berenstein no livro “Sua Santidade” conta que quando o Papa João Paulo II visitou a Índia em 1986, rezando diante do túmulo de Gandhi em Nova Dehli, ficou longo tempo tocando com sua mão a pedra da sepultura onde estão escritos os sete pecados sociais da humanidade moderna:“Política sem princípios; Riqueza sem trabalho; Prazer sem consciência; Conhecimento sem caráter; Economia sem ética, Ciência sem humanidade; Religião sem sacrifício”.

1. Política sem princípios: Gandhi entendia muito bem de política e de mística. Percebeu a falta de ética na política e o desastre social que tal postura provoca. Os pilares éticos da política são: a justiça, a verdade, a liberdade e o amor. Uma política sem princípios éticos transforma-se em disputa de interesses pessoais, oligarquias, corrupção, fraudes, manipulação social.

2. Riqueza sem trabalho: O Sistema neoliberal reforça a pirâmide social perversa onde os ricos se tornam cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. A técnica e a informática desligadas dos valores fortalecem o apartheid social onde muitos trabalham, mas a riqueza fica nas mãos de poucos. Na cultura consumista, onde os filhinhos de papai recebem tudo, sem trabalhar, está um dos maiores defeitos da vida moderna, é o problema da riqueza sem trabalho. No Sistema neoliberal a máquina tem prioridade sobre o homem, eis o pecado estrutural denunciado em Puebla.

3. Prazer sem consciência: Ghandhi viveu por decisão pessoal longos períodos de continência e castidade, porque tinha consciência que a revolução sexual, como a liberação da libido, tem levado as civilizações para a decadência. O prazer é o dom do criador em favor da vida. Não podemos ser contra o sexo, nem contra o prazer, muito menos contra o corpo. Somos contra o prazer absolutizado, o “prazer sem consciência”. O prazer desordenado tem causado injustiça, violência, doença mental, desagregação da personalidade. Já o prazer ordenado, vivido com gratidão e consciência, é meio saudável de doação, criatividade, entusiasmo e gosto de viver.

4. Conhecimento sem caráter: Tal conhecimento é apenas erudição sem sabedoria, sem mudança de vida, sem a conscientização. O conhecimento sem caráter começa com o costume perverso de “colar na escola”, de conhecer para aumentar o poder, é a simbiose entre conhecimento e opressão, ciência e manipulação, “saber sem sabor”. Mas, conhecimento sem caráter, é ambição por poder, busca de prepotência, cujo fim é “conquistar o poder, aumentar o poder, assegurar o poder” (R. L. Shinn). Conhecimento sem caráter é o mesmo que dizer: “saber é poder”. Tal saber não serve à vida, mas à morte.

5. Economia sem ética: É o livre mercado, onde o dinheiro é a “nova providencia” e a propaganda a “nova evangelização”, com romarias pra Miami e New York, onde os sacerdotes são os banqueiros e os empresários e a fé se concentra na caderneta de poupança, nas bolsas de valores, cujos templos são os bancos, os motéis e os shoppings. O mercado tomou o lugar da religião e comanda a sociedade secularizada com impiedosa massificação das mentes, economia sem ética é levar vantagem em tudo, é vender e lucrar, é mais valia, consumismo. O crescimento econômico sem ética é o pior monstro que a terra já viu. Ele é a fonte da violência, miséria, fome, prostituição, poluição, neurose e pânico. Lucrar, ser o mais forte, vencer, eis a lei da economia sem ética.

6. Ciência sem humanidade: É a ciência nas mãos de uma minoria que tudo sabe e a todos controla. È a ciência a serviço do poder e da violência, do racismo e do neoliberalismo. Ciência sem humanidade, é ciência sem consciência, desligada dos valores e da fé, ciência a serviço de interesses egocêntricos. Em nome desta ciência a poluição gera a morte da terra, os fetos são “matéria descartável”, os pobres são os culpados do sbdesenvilvimento, a clonagem é a substituição do amor sexual, do casamento e da família, a informática é meio de dominação do mercado. É a ciência a serviço das ideologias e interesses pessoais e corporativistas: “Sua ética é o interesse” (P. De Oliveira).

7. Religião sem sacrifício. É a religião sem testemunho, predica sem pratica, oração sem fraternidade, o culto só dos lábios. A pior das corrupções, é a corrupção religiosa, onde se usa o nome de Deus e se manipula o povo, em busca de lucros. A religião virou mercadoria e até safadeza. Religião sem sacrifício, é religião sem cruz, sem o seguimento de Cristo pobre, casto e obediente. É pregar sem viver o que se fala, é ajustar a Palavra de Deus segundo nossos interesses, elevar nossos caprichos à esfera de vontade de Deus. Religião sem sacrifício é querer que Deus faça o que nós queremos. Religião sem sacrifício é dizer uma coisa e fazer outra. É querer Deus sem se envolver com o mundo.

Dom Orlando Brandes Arcebispo

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